Desabafo do cotidiano

Meu amor!

Ando em véspera de sucumbir. Alastrou-se um discurso violento e todos os espinhos da carne se alojaram na alma.
Se ao menos você estivesse aqui, andaríamos de mãos dadas. Eu não falaria sobre a carestia dos livros, nem das flores.
Você não falaria do Cordel do Fogo encantado nem do SESC. Discutiríamos sobre a liberdade democrática que está por um fio. Um fio descascado que dar choques.
Falaríamos sobre os grupos sociais minoritários que correm risco de serem esmagados por sandálias de chumbo e coturnos de aço.
Mil vozes se calam dentro de mim. E eu tenho chorado igualmente os dias em que o câncer nos habitava. 
Meu coração sem partido foi advertido e está doloridamente trincado. A poesia adormeceu e a esperança escorre pelos vãos dos olhos.
A verdade de Cristo está sendo distorcida, embandeirada como estandarte sem valia por idólatras cheios de fanatismo.
Você compartilharia o texto que o Oswaldo Jr. escreveu, sobre esse tempo cavernoso de tirania e desesperança.
“Descemos vários degraus na escala da civilização”.

Meu amor!

Tentei entregar um poema para o vizinho, para o pastor, para o lavador de carros, e também para o moço que vende produtos de limpeza. Um poema simples de alerta amorosa, mas caíram todos na cristalização dos enganos. 
Estou exausta.
Aprendi fazer compota de pitangas.
Tentarei escrever versos alegres.
Catarses se mesclam na despedida de cada entardecer.
Das cinzas da ditadura brotam larvas. Germes peçonhentos que não enxergam o desamparo do próximo por detrás daquilo que cegamente defendem.
Mas por tudo que vivemos juntos, e por tudo que anseio para nossa filha...

“Ainda cabe sonhar”!

Sinto tua falta, demasiadamente.

Zenilda Lua

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