Quando se descuidava ficava mais terno

Quando se descuidava ficava mais terno.

Dava de tocar meu colar de miçanga com a ponta dos dedos.

Soprava  minhas pálpebras.

Vigiava meu colo e minhas pretensões.

Contava as minhas costelas e  abarcava-me as costas com as duas mãos.

Não comprava flores, mas evocava xícara de café leitosa, deitava dentro lasquinhas de chocolate amargo e, entregava-me  com sorriso e calma.

Eu bebia o amor com a ponta dos olhos... silenciosamente.

Lambia os beiços.

Memorizava a curva de sua voz e o agradecia com um poeminha curto.

Ele correspondia e só arengava quando me flagrava  levando a caneta bic ao ouvido. Um costume antigo que nunca se enfada.

Deixou-me suspirosa, pensativa e partiu incauto, sem despedidas.

A hibridez do  outono  ainda me propicia marejos, impulsos e arroubos.

Parece que nunca melhoro.

Vivo em estado de temor, fraqueza, desassossego e decadência mórbida.

Alguma alegria ainda existe, mas não consigo  me isentar  desse lenga-lenga de passarinho que só sabe cantar triste.

Zenilda Lua

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