Zenilda Lua - 30 de Janeiro de 2018 - (801 j leram)

S mesmo pra dizer...

...Janeiro chegou trazendo as certezas mais sagradas.

A maciez das nuvens que imitam coisas, bichos e flores.

A imensidão do céu e do mar.

O cheiro do capim cidreira fervendo na chaleira na casa de  mãe para as noites de chá.

A secura intensa e salobra do sertão todo.

O encontro com os amigos de infância e da juventude. Os primeiros amores.

As alegrias prazenteiras de abraçar os irmãos, aqueles “cabrinhas-da-peste” de toda qualidade.

O pirão de queijo na entrada da janta, a pizza sertaneja, o coquetel de frutas com leite, invés de álcool, as músicas cantadas com a ênfase dos karaokês principiantes.

Os cheiros. Todos os cheiros solavancando a alma. As primas a fotografar tudo que ver pela frente. E  eu sonhando em refazer a casa de varanda de nossos avós pra gente.

O perfume do tamarindeiro morto de sede. A rama de batata se espreguiçando morna na barreira daquele que um dia já foi um rio, o nosso rio e  tinha peixes.

Voltar pra casa é reunir poesias antigas. Mandatos e dores. É abrir relicários. Cadernos com figurinhas da turma do Balão Mágico e dos Menudos. É ouvir os hinos na igreja e responder com  os olhos cheios de água:

“Oh, Ele me amou... Ele me ama. Ele me amou”!

Voltar é visitar cômodos santíssimos. É beber  o refresco da primeira fonte.

É admirar as avenidas, os becos, as bodegas, a casa de ração, a loja que sempre fecha na hora do almoço.

No lajedo da meninice desmistificamos  os enigmas. Em alguns locais desvoejaram  todas as borboletas amarelas que beijavam as malvas.
Os jasmins bravinhos, do alto grande também não nasceram nunca mais.
Os baixios viraram  tudo pedra.
Mais ainda assim é bonito!
Meu coração também pertence as lajotas duras daquele lugar.  As folhas secas do serrado que se lamenta febril e desidratado.

Minha alma nunca se despregou de tudo de lá.

No mormaço de cada tarde ela segue costurada no forro dos embornais miúdos de minha gente.

Pra cima e pra baixo.

Pra cima e pra baixo, silenciosamente!  (Zenilda Lua)

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