Zenilda Lua - 14 de Setembro de 2017 - (1090 j leram)

H pouco tempo era azul-violeta meu tempo. Por Zenilda Lua

Há pouco tempo era azul-violeta meu tempo.

Com traços regulares de folgas clarinhas e amendoadas.

Nesse tempo eu desconfiava que o amor também nascesse das excelências interiores, só desconfiava.

A certeza veio quando aqueles fios de lilás puxados pro roxo anunciaram um futuro que se desprende dos aromas que atarantam.

Entrecortei soluços e suspiros. Não maldisse o perigo que veio sentar-se justo na soleira de minha porta preferida.
Apoiei-me numa coivara de coragem e aceitei com firmeza a queimadura do tempo. 
Agrião de brejo esturricado, baú de mascate, Úrsula Buendia, Macabéia fazendo unhas no atiçar do fogo, flaneleira cinza que não limpa vitrais, mas açoita todos os bichinhos da horta.

Perna fina a correr pelo mugido de um trovãozinho de nada.

Andarilha a pechinchar burundangas, brincos de pena e saia hippie. 
Fotografada pela irmã.

Eis-me aqui: a mesma Luzia cativa que ainda ama o cheiro de chuva na telha, repudia os políticos corruptos, agradece a Deus por todas as horas  e morre todo  dia um pouco resplandecida em saudades.

Zenilda Lua

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