IMAGENS REFLETIDAS – por Misael Nóbrega de Sousa

(...). Qualquer expressão artística era contra a lei. Os ratos abichavam as migalhas dos mecenas. A criatividade era subordinada à sarjeta de nossos dias. Uma leva de indignados desce aos porões à cassetetes e botinadas. Os olhos, vendados. Há sangue nas mãos? O crime: queriam pichar os muros. Não houve luta armada; passeata dos cem mil; prisões e tortura; resistência e mortes... – Pelo menos, não houve para mim.

Eu vivia rodeado de cidadãos-mochos, por assim dizer. Inominados. Heróis, nunca! O Brasil negou a si mesmo. O ócio foi o meu confessor; e isso era a garantia de estar bem. Esperar na conformidade... – A sujeição era a sobrevivência e, portanto, a humilhação. Quem sabe uma guerra não teria manchado de vermelho o céu da pátria. Ouvíamos comentários de camaradas capturados. E eu? Um modelo de fracalhão para os “milicos” – Pior que foi assim mesmo. 

Havia ideias sobre algumas cabeças; e, apenas ali, permitia-se o alargamento das coisas. O resto era contravenção: beijos na escadaria do colégio; sobejos de vinho tinto; uma melodia assobiada de Chico; versos rabiscados no guardanapo... – Só a subversão podia me redimir da fraqueza. Vivíamos em dois “Brasís”; e o meu era o do “Eu Te Amo, Meu Brasil”...

Cantávamos o hino nacional, perfilados no pátio do Colégio Estadual Pedro Aleixo (um udenista mineiro que se aliara aos generais), às quintas-feiras, enquanto a bandeira brasileira era hasteada. Quando a encenação acabava, voltávamos, enfileirados, para uma outra Auschwitz, que ficava dentro de nós; e, ali, nos cárceres, disfarçados de salas de aula, ensinavam-nos a “Moral” e o “Civismo”. A falsa propaganda fuzilou todos os sonhos e pariu os filhos da ditadura. 

As músicas de Roberto Carlos eram permitidas; e os filmes de pornochanchadas no cinema do Prado.... – Quando se conseguia um desligamento mental. E nada de sarau. Naquela época, não podiam vingar artistas. Eu, natimorto de 1969. E o homem estava na lua. O apostolado foi meu opressor. Fiz a primeira comunhão. Tinha ficha na igreja, portanto. E todos aqueles azulejos e vitrais da basílica de Santo Antônio, só aumentaram o meu pavor: anjos com expressões ameaçadoras; serpentes e demônios; cabeças decepadas por espada ... – A obra de Deus foi arrolada na batalha.

Colecionava selos de ex-presidentes e disputava figurinhas da copa de 74. O futebol sempre foi o ópio do povo. “Salve a seleção”. Os jornais eram censurados e as TV’s mostravam desfiles de moda, enquanto os generais fodiam o país. Não vi “Calabar”, de Rui Guerra e Chico Buarque. Lamarca e Marighella eram sobrenomes comuns. Só li “Os carbonários”, de Alfredo Sirkys, em 1985. Depois alguém reproduziu poemas mimeografados. Assim, alheio, e de costas para a realidade, só vi imagens refletidas... - Qual era o meu Brasil? – Antes de qualquer atitude, a ditadura acabou.

A ditadura acabou por ela mesma. Não quero contar mentiras para meus filhos, pois na tentativa de não dizer a verdade, posso estar querendo me esconder. A minha única esperança foi reaprender a viver. Porém, ainda há caudilho escondido no vergel.  

Espero no dia em que a coragem vai nos rebelar e seremos um só bando: heróis, covardes e inocentes. Só não indultaremos os ímpios. Então, fica decretado que nesse dia que nunca existirá. Dia de nossa fortuna. Marcharemos nus e erigiremos cada período destruído. Ao exílio, condenaremos os aniquiladores de nossos gozos. Não gritaremos palavras de ordem. Ressuscitaremos os mortos de boa-fé. Reabriremos todas as portas. Daremos a cada poeta o direito à declamação ao ar livre. Vandré será nosso alto-falante. Os generais serão deportados; e para cada soldado uma flor. A parada de sete de setembro deixará de existir; ao invés disso, um berro de independência. Nada de ordem e progresso - Respeitaremos as diferenças. A religião será o pão de cada dia. Um minuto de silêncio será respeitado para qualquer funcionário público que for declinado à sepultura. 

1964 será proclamado o ano que não existiu; assim como as baionetas e os camburões. O novo regime será a liberdade; e o presidente Carlos Drummond de Andrade.

Misael Nóbrega

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