Crônica em homenagem à banda Filarmônica 26 de julho escrita pelo jornalista Misael Nóbrega de Sousa

O amanhecer banhava aquele outubro de dois mil e três feito uma dádiva divina. Ao abrir a janela de minh`alma, pouco depois do orvalhar da madrugada, fui agraciado com uma formosura análoga. A banda de Chico Buarque de Holanda, passava em minha rua, "cantando coisas de amor".

Por instantes, lembrei dos soldadinhos da infância, à Rua Capitão Ló... - Será que fugiram da caixa de sapatos, onde repousavam eternos, para marcharem em pleno arrebol?

A cadência melódica era ditada pelo maestro-regente, que destacado dos demais, abanava a sua batuta para extrair os mais perfeitos acordes. Logo atrás, carregando nos ombros, aqueles instrumentos de fabricar sonhos, vinham os músicos da banda... enfileirados de forma igual. A pancada mais forte no bombo, marcava o passo (direita-esquerda, direita-esquerda).

A cidade que me viu nascer tem uma filarmônica, testemunha de muitas narrativas - A qual batizaram de 26 de julho - mas, que também poderia se chamar guardiã dos nossos segredos. Quantas histórias não existiam ali, passadas de gerações em gerações.

Vejo rostos jovens, como uma poesia que se renova, a manejar trompas e trombones - E lembrei: Afonso "Bacalhau", Assis "Casca de bala", Valdemar "do pandeiro", Edson "maestro" Morais, Hermes Brandão, "Valdim" de Misael - que viveram e morreram na banda de música... e hoje viraram personagens desse folclórico conjunto de partituras.

Devemos admitir: "O novo sempre vem".

O que fazem esses destemidos senão embelezar as auroras? Em cada dobrado, a devoção à uma cidade... - em respeito e admiração,  recíprocos. Quem dera, este concerto acontecesse nas vezes em que pensamos em morrer. Ao ouvir a celebração da existência, não teríamos razões para desistir, tampouco forças para continuar tentando...

Sugeri, interiormente, que a sinfônica parasse. Na verdade, meu coração pedia um pouco mais daquele regozijo. Lá, rá, lá... solfejei. Revigorado, os vi dobrarem à esquina, em busca de outras almas infaustas.

- Que venha novembro!

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