ANJO DE PEDRA – Misael Nóbrega de Sousa

Tua aparência sempre foi emblemática: um anjo custódio à porta do céu. Nenhuma imperfeição é parte de ti. E não há merecimento humano para a tua carne imaculada. Vens de um tempo ausente. Outro exagero dos deuses. Dimensão. Espaço. Tempo. Existir. Ações. Reações. Frações. A saudade é a chaga incurável de meus dias. Pego o novelo das horas e faço dele o sol. E quando a luz banha o meu corpo sofrível... – Começa a iniciação. Quais partes pertencem a mim? Pão. Aguardo a colheita do trigo na palidez desta terra miserável. – O paraíso é um lugar de hábitos infindos, próprio de ti. Eu não o mereço, enfim. Sou uma aberração que nutre a ideia da posteridade. Nada se faz novo. Senão por ti, os meus medos seriam mais que vencedores. Rasgo a dor; e, esta dor sorri do ato vão. Posso ser inclemente, mas também posso ser inerme. E as lágrimas se apoucaram. O que há, então? Folhas secas descolorindo caminhos. Janelas emoldurando os destinos. Painéis. Cenários. Retratos. Traços. Lousa. Coisa. Augusto rosto que me agoniza às madrugadas de todos os janeiros. És a aparição que já assombrou a minha mãe?. Por que vens testemunhar o meu sono aflito? Já não há lugar para ti na cosmologia, como bem disse? Ou és o verdadeiro amor que nunca terei? Demoníaca confusão que me alucina. Ainda mais, porque embaraços nunca foram predicados meus. Os suores impregnam os lençóis como se dissecassem as dúvidas. Ofereço uma taça de sangue, em sacrifício. Mas, não receberei o céu. Terei o meu próprio canto. E serei rei. Absurdamente impotente perante os súditos. Nada ordenarei. Não direi que pregarei o caos, pois nada serei. Assemelharei o meu império aos dias desprezíveis de então. Vagarei. Sim, vagarei por entre os céus das virgens Marias que conheci. E repetirei os pecados. Saias de minha vida e de minha morte, anjo de pedra. Não quero ouvir nenhuma epístola. Não há como endireitar o meu andar coxo. Porém, conceda-me um desejo – Talvez o maior de todos eles – O desejo de saber morrer – Sem a ignorância dos comuns nem a empáfia dos saudáveis – Apenas com o assentimento de que mereci viver.

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