MEU PAI É O MEU SANTO. Por Misael Nóbrega de Sousa

Eu nunca fui espiritualizado, porém não há um só dia em que eu não pense nele. E não são devaneios, mas lições. É quase presença física. E todos os sinos se dobram em minha cabeça, numa ladainha eterna. “A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. E foi assim que me fiz saber que eu era o menor de todas as medidas. O remorso das horas é um fardo pesado de carregar; e, eu, há muito, rasguei o bilhete da felicidade. Ao lado de meu pai, no banco cinza da estação, vejo que os trens não partem. Ninguém deveria subir a bordo daquilo que nunca se termina. O cálice me empurra para as perguntas sobre a imortalidade. E, pasmem, meu pai me dá mais conselhos morto do que vivo; e vou além, ele agora é o meu único Santo. Invoco na agonia o seu melhor gesto e o que recebo é reprovação. Tenho medo de mim. Não quero mais essa dor que não me dói. Não fui eu que morri. Olho fixamente na mesma direção que ele. Mas, continuo sendo eu mesmo. Nenhuma palavra. Sigo segurando-lhe a mão bem mais fortemente... Não sei se o deixo partir (de novo) pois apartado só terei como companhia esses “morcegos Augustianos” a sobrevoar-me à cama.

Publicidade