Misael Nbrega - 25 de Outubro de 2017 - (532 j leram)

O MENINO CEGO (Misael Nbrega de Sousa)

Às tardes, à porta de casa, ele brinca de enxergar. Na companhia dos amiguinhos, diz ver o sol se pôr bem detrás da serra do Lima. Assim que os últimos raios beijam-lhe à face imberbe, a noite surge arrastando, vagarosamente, os seus infinitos mistérios para as bandas de cá. 

E quando a lua aparece dependurada, lá, bem alto, ele acerta todas as fases. (...). 

De repente, grita – Escondam-se todos! Lá vem a bruxa má! – E caem na gargalhada. – Àquela hora, todos os dias, dona fulana sai para comprar o pão, acompanhada de sua cadela de estimação.  Sempre os mesmos passos, trôpegos (...)

- Meu irmão está indo se encontrar com sua Dulcinéia – Fazendo referência ao livro-cabeceira de seu pai, - E o rapazote, encabulado, ganha à rua depressa, - cheirando a bem-querer.  

À pedido da mãe, quando chegada a hora, recolhe-se para o rito do pijama – Aliás, tudo na vida dele obedece uma quase liturgia, pela dinâmica acomodada de seus dias – Não chamo de deficiência, mas de coragem. Ao encontrar alternativas para seguir adiante, diz-nos o quanto somos pequenos. Ainda mais, por acharmos que esse mundinho de faz de conta, no qual prezamos tanto, é o nosso panfleto de céu (...) 

O abajur à meia luz; o vento que passa pela janela entreaberta; o ressono que vem do quarto ao lado (...) tudo está onde, realmente, deve estar. -  Em sua caminha, o menino fecha os olhos no sono da gratidão, por mais um dia vencido, pelo vencedor.  

Não há sonho ou pesadelo. A referência que ele tem desta vida, são as vozes indolentes dos outros meninos da rua, que cheios de graça, descrevem não para onde ele deve olhar, mas para aonde ele deve ir (...) 

E o menino cego vai seguindo o seu caminho enxergando apenas com o coração.

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