Misael Nbrega - 21 de Setembro de 2017 - (1004 j leram)

A FESTA DE SETEMBRO. por Misael Nbrega de Sousa

Maçã do amor; batatas fritas; cachorros-quentes e guaraná; barracas de tiros; algodões doces; jogos de azar; balões infláveis e bolas gigantes; o sino da igreja, o pavilhão; as novenas e confissões; a procissão... Ela ainda estava lá. Não diria, resignada; resoluta, sim! Mas, talvez eu que estivesse diferente.

Nem bem adentrei à Solón de Lucena, antiga “Rua Grande” de meus pais, pude ver os parques de diversões que se instalam ali, por tradição; e, que hoje, seduz, também, as ruas adjacentes. É quando os castelos de sonhos se erguem no centro de minha cidade/mãe, com as cores emprestadas do arco-íris; e, por meio deles, a materialização da alegria. O cenatório é de um grandioso circo. Geringonças se amontoam sob a jura do melhor divertimento. Os brinquedos estão ficando mais modernos; e as crianças menos crianças.

Paro no carrossel de bichinhos e não resisto à lembrança. Conservaria, ainda hoje, a mesma mágica? E procurei, em cada menino que volteava ao redor do mundo, os rostos de minha infância: O “Parque Lima” era o playgroud de antigamente. Figuras artesanalmente construídas com o madeiro sagrado das idades puerícias. E aqueles cavalinhos, que nem existem mais, levavam-nos para qualquer lugar, mesmo fincados no eixo da resignação. Ainda, reminiscente, resgato da memória, o aviãozinho de latão, - que sem luzes nem nada, conduzia-nos para fora da órbita, numa viagem imaginária. E, por fim, a roda-gigante, meio acanhada, é bem verdade, - mas que nos colocava acima das casas; e isso bastava para entrever o futuro.

Despertei daquele sentimento nostálgico com os acordes da filarmônica 26 de julho. E antes de entrar na igreja para receber as bênçãos de Nossa Senhora da Guia, parei para ver a banda tocar... - como uma retreta de tudo que já foi dito. De 14 a 24 de todos os setembros, a então bicentenária “Festa da Guia” acolhe devotos das paróquias vizinhas. É quando todos acorrem às suas rezas para a igreja Matriz, Catedral de nossos dias; e, cada novena, é oferecida à comunidade - na forma da eucaristia. O pavilhão é o coração da festa. Ao final da noite, todos retornam para as suas casas, tocados pela Virgem Santíssima, porém, sem deixar de notar os bancos de azar. O religioso e o profano coexistem naquele ambiente: ora lúdico; ora litúrgico... E as jogatinas se espalham pelo corredor desmedido, ignorando as orações.

Aprendi com o escritor de “A Bagaceira” que: “Ninguém se perde no caminho da volta”. E o paraibano Jose Américo de Almeida, justifica: “porque voltar é uma forma de renascer”.A festa de setembro é também de renovação. Muito embora, não apenas espiritual, mas social. Compatrícios elegem no calendário anual aquela data na vida deles. E mesmo morando longe, retornam para os parentes e amigos, pautados na certeza do abraço e da fé. Ah! Festa de felicidade circular... - Feito esse brinquedo que agora vejo a encorajar os beijos adolescentes dos filhos de minha geração. 

Já estou quase do outro lado... - E o que já era um retrato esmaecido, vai ficando ainda mais no passado. Porém, o que seria de nós se não fosse o renovamento? Obrigado, festa de setembro! Se antes faltava coragem de olhar para trás, agora estou mais confiante por seguir em frente...

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