Misael Nbrega - 1 de Setembro de 2017 - (590 j leram)

ESTHER. Por Misael Nbrega de Sousa

EU SEMPRE QUIS CONHECER UMA mulher chamada Esther; assim mesmo... Puro e simplesmente. Num cochilo de moral, invejo Jorge Luis Borges, que ofereceu a uma pessoa homônima, “ficciones”, talvez o livro mais importante de sua obra. E eu? O que teria para dar a minha Esther? Quem sabe os meus instantes de isolamento... - O silêncio cortado pela pronúncia de seu nome, como que me socorrendo... - Feito anteparo da insanidade.

Esther seria parida de uma aventura à Espanha. Nasceria em um navio cargueiro, em pleno alto mar. E, assim tinha que ser. Cresceria em San Sadurní d´Anoia, região da Catalunha. Esther seria ruiva e exalaria um perfume de parreira... - Ali, tornar-se-ia a mais cobiçada das mulheres. No entanto, a minha Esther não serviria para casar; teria qualidades de cama. Esther seria ferida por dentro... – Mesmo assim, nunca a veríamos de luto. Revelar-se-ia, para mim, apenas, balzaquiana: imagino que não houvera motivo para um dia ser menina. À ela, e a ninguém mais, o direito sagrado dos anos de viço.

A minha Esther comeria com as mãos; e, faria do alimento, uma eucaristia. Amar Esther seria começar a perdê-la. Viveríamos uns tempos num apartamento, com vista para um beco; cuja lua jamais refletiria e de onde sequer veríamos as estrelas; e fora ali que os gatos, no cio, inspiraram o nosso coito. Esther seria alguém para mordiscar, literalmente, os (sádicos) bocados da carne, de seu corpo-mulher. Comer Esther, portanto, não seria uma confissão vulgar.

Veria em Esther um composto formado por tudo que é mal-intencionado... – Algo como a minha penitência. Um período lacônico, uma lembrança, uma saudade... – O que seria mais que aceitável: um romance. Todavia, ninguém poderia amar aquela mulher. Ela não toleraria, de fato. O amor confunde as pessoas. E, Esther, sabia... - Quem ama não se contenta com “sala e quarto”.

Antes de tudo, até mesmo da materialização de Esther, eu teria a certeza de que ela iria embora, na aurora que bem escolhesse, sem comento. E mesmo assim, eu iria sofrer por Esther... – E, também, iria odiá-la. E depois, mesmo sabendo ser, igualmente, uma tolice, percorreria todos os nossos lugares: bar, praça, banca de miçangas... - E, desde o primeiro desses cantos, rezaria a oração que conhecesse. E o faria tão alto, que isso só a encorajaria a continuar fugindo.
- Dizem que Esther faz ponto nas esquinas das ruas de maio.

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