Misael Nbrega - 7 de Agosto de 2017 - (771 j leram)

UM ENCONTRO COM MEU PAI. (Misael Nbrega de Sousa)

Ontem eu encontrei com o meu pai, quando descia as escadas do prédio em que resido. E conversamos sobre alguns episódios que passamos juntos. A voz dele ainda estava atrapalhada, mas com paciência dava pra compreender o que dizia. Muito embora, o olhar fito no canto branco da parede lateral que escorava a nós dois, quando de uma pausa e outra, dissesse mais que tudo. Aquele olhar denunciava o mundo. E eu era o seu mundo.

Não havia muitas passagens para lembrar, porque ele sempre fez questão de deixar que eu descobrísse sozinho; embrora, vigilante de mim, toda a vida. O nosso último encontro, ainda no plano carnal, foi emblemático. Ele não queria que eu fosse embora de jeito nenhum, não era que minha presença fosse lhe garantir um tempo a mais de vida... – Depois, vim perceber que ele só queria um tempo a mais comigo.

– Pai, eu já vou. – Não! Não! Repetia, insistentemente. Mas, eu fui embora. Claro que carregava comigo a culpa; e, como merecimento, esse remorso do tamanho do mundo. Eu podia (e devia) ter feito mais... – Como ter ficado mais tempo, por exemplo, para segurar-lhe a mão. – Perdoe-me, meu pai! Eu nunca soube ser filho. – Eu só aprendi a seguir em frente, como me foi ensinado.

Só agora eu sei o que representa a morte. Ela é mais cruel do que eu imaginava, pois mata também os que ficam vivos.

Eu queria terminar de descer a escada para ir trabalhar, visto que já estava atrasado; no entanto, ele obstaculava a passagem – E a luz que vinha da rua era a única fuga do corredor escuro. A sua silhueta raquítica do fim dos tempos, ainda mais me doía. Ele não merecia ter passado por tanto sofrimento.

– Preciso ir, pai... - E, de novo, eu fugia de nós dois. Foi aí que me absolveu. – Deus te abençoe, meu único filho! E prometeu que nunca mais nos veríamos. Não era ele que precisava de Deus, era eu; e ele voltou para me dizer isso.

Quando já estava à porta, olhei para o corredor estreito e íngreme, atrás fe mim. Vi quando ele subiu seus derradeiros passos, degrau após degrau, até desaparecer em direção ao céu.

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